Como divulgar informações de prevenção do Covid-19 se a língua de seu país não é a sua?

Escrito por  NESAM Mar 25, 2020

Partindo do ideal de que a divulgação científica, principalmente neste momento da pandemia do Covid-19, deve chegar a TODOS, responda com sinceridade, divulgador científico: seu material foi pensado para TODOS os brasileiros?

Pensando nessa questão, a Profa. Dra. Taciana de Carvalho Coutinho da UFAM – Universidade Federal do Amazonas, em Benjamin Constant no Norte do país, se propôs a desenvolver junto de seus alunos, materiais de divulgação científica sobre a Covid-19 para as comunidades indígenas da região.

“Todos os meus alunos de iniciação científica são indígenas… A universidade possui mais de 50% de alunos indígenas de 8 etnias presentes” comenta Taciana.

De acordo com o censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no território nacional existem 274 línguas indígenas, e dos 130 mil indígenas apenas 6 mil falam o português, além da língua mãe, desses 46 mil indivíduos falam a língua Ticuna, do Amazonas.

A região de fronteira do Alto Solimões encontra-se em posição estratégica no país, na tríplice fronteira Brasil – Colômbia – Peru, e é a porta de entrada circulação de pessoas e produtos provindos do pacífico, de países da América do Sul, Central e do Norte. São três as principais cidades da fronteira no Amazonas, banhadas pelos rios Solimões e Javari: Atalaia do Norte, Benjamin Constant e Tabatinga, sendo esta última cidade gêmea de Letícia na Colômbia, em uma fronteira física quase inexistente. Quase, pois hoje encontra-se fechada por conta do Covid-19. Tabatinga também faz fronteira com Santa Rosa, no Peru e Benjamin Constant com Islândia, também Peru. A população das três cidades juntas ultrapassa os 100 mil habitantes e, contando com as cidades em conexão, esse número pode chegar à 300 mil habitantes.

Hoje, Taciana cedeu um pouco do seu tempo de quarentena para nos contar mais sobre esse trabalho, confira abaixo a entrevista:

A Profa. Dra. Taciana de Carvalho Coutinho é doutora em Recursos Naturais pela Universidade Federal de Campina Grande e leciona há 11 anos no Instituto de Natureza e Cultura da UFAM de Benjamin Constant

Érica Mariosa: Profa. como surgiu a ideia de preparar esse material de divulgação científica na língua mãe dos seus alunos?

Taciana de Carvalho Coutinho: A ideia surgiu a partir da carta que fizemos como agradecimento pelos produtos de agricultura, caça e pesca que nos disponibilizam e da conscientização da importância deles ficarem nas comunidades nesse momento. 

Nós temos em sala de aula muitos alunos indígenas, de 8 etnias diferentes, e era importante pensar em como fazer um trabalho de alerta  para que esses alunos e outros indígenas não saiam de suas comunidades, uma vez que eles vem até a cidade para vender a sua produção de alimentos. 

Optamos por disponibilizar materiais na língua Ticuna, traduzido pelos próprios alunos e distribuído pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e a Fundação Nacional do Índio – FUNAI, além de uma campanha muito forte para que os – não indígenas – não entrem nas comunidades, devido a vulnerabilidade de saúde e dificuldade de acesso atendimento hospitalar.

Para se ter uma ideia, ao lado de Tabatinga (cidade próxima a Benjamin Constant) existem mais de 7 mil indígenas, imagina se o vírus chega até eles! Seria catastrófico, a região não tem condições hospitalares, não existe, inclusive uma articulação política para esses atendimentos.

Muitos deles vivem da caça, da pesca e da agricultura que são vendidos na cidade, assim ficam vulneráveis. A ideia era conscientizá-los que fiquem em suas comunidades. 

EM: Quais os desafios e a realidade de estar em uma sala de aula com alunos que não possuem o português como língua mãe?

TCC: Trabalhar com essa diversidade sociocultural é bem complexo, somos preparados na vida acadêmica a lidar com ciência pura e aplicada, uma vez que sou bióloga, com mestrado em genética e doutorado em recursos naturais, e a princípio, ao chegar em sala de aula, há insistência em algo mecânico. É preciso abrir a cabeça e perceber que nessa região às coisas são diferentes.

Não é possível cobrar do meu aluno um português exemplar, uma vez que ele foi alfabetizado na língua de origem. Tenho alunos Ticunas que falam sua língua de origem muito bem mas pouco escrevem, tenho alunos que leem e escrevem muito bem o português mas não escrevem em ticuna ou já até perderam a fala de origem, além das outras etnias indígenas presentes na região. 

Vem daí a dificuldade de produzir esse mesmo material em outras línguas.

Tendo todos os alunos indígenas me fez pensar em como, eu como profissional, poderia ajudar a buscarem e perceberem que eles são protagonistas da sua realidade. 

Normalmente, eles são muito pesquisados, mas eles também são pesquisadores, vão a suas comunidades e estudam sobre sua cultura, sua diversidade, seu artesanato, suas lideranças, sua identidade. É importante mostrar que eles podem dentro da universidade pesquisarem sobre sua própria comunidade. E isso foi importante para essa aproximação das necessidades dessa região.

EM: Como foi preparado o material?

TCC: Se você observar, as frases foram pensadas para serem simples mas possuem sua simbologia. As crianças e os idosos representam a nova geração e a geração que detém o conhecimento tradicional. Isso é muito importante.

Na imagem está o Sr. Pedro Inácio que foi um grande líder do povo Ticuna, foi o homem que lutou pela organização social da comunidade, então ele possui uma forte representatividade para o povo.

 

Não só as frases, mas as imagens também não foram escolhidas ao acaso, essas imagens fazem parte do cotidiano deles, a ideia é também trabalhar com essa sensibilização.

 

A imagem do casal de idosos abraçados foi escolhido por ser o casal mais velho a se casar na região, apesar de já viverem como casal a muitos anos, eles optaram por oficializar a união em um casamento coletivo, se destacando por serem o casal mais velho a se casar. Então, seu simbolismo está no respeito aos nossos idosos.

 

Fiquem nas comunidades.

 O material foi produzido pelos alunos:

  • Sandrinha Inácio Clemente – Comunidade Indígena Novo Porto Lima
  • Monique Inácio Clemente – Comunidade Indígena Novo Porto Lima
  • Nilson Fernandes Agostinho – Comunidade Filadélfia üütchigüne.
  • Isanildo Moçambite de Souza – Comunidade Bom Caminho
  • Edney Firmino Santos – Comunidade Vila Independente de SPO

Com a orientação da Profa Dra Taciana de Carvalho Coutinho e ajuda na tradução Edivania Luciano Fidélis – Comunidade de Filadélfia BC/AM

 

FONTE: https://www.blogs.unicamp.br/covid-19/como-divulgar-informacoes-de-prevencao-do-covid-19-se-a-lingua-de-seu-pais-nao-e-a-sua/

Última modificação em Quinta, 02 Julho 2020 07:40
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